segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

1270 - A espantosa realidade das coisas

















A Espantosa Realidade das Coisas

Alberto Caeiro(1889-1915)


A espantosa realidade das coisas
É a minha descoberta de todos os dias.
Cada coisa é o que é,
E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra,
E quanto isso me basta.

Basta existir para se ser completo.

Tenho escrito bastantes poemas.
Hei de escrever muitos mais. naturalmente.

Cada poema meu diz isto,
E todos os meus poemas são diferentes,
Porque cada coisa que há é uma maneira de dizer isto.

Às vezes ponho-me a olhar para uma pedra.
Não me ponho a pensar se ela sente.
Não me perco a chamar-lhe minha irmã.
Mas gosto dela por ela ser uma pedra,
Gosto dela porque ela não sente nada.
Gosto dela porque ela não tem parentesco nenhum comigo.

Outras vezes ouço passar o vento,
E acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido.

Eu não sei o que é que os outros pensarão lendo isto;
Mas acho que isto deve estar bem porque o penso sem estorvo,
Nem idéia de outras pessoas a ouvir-me pensar;
Porque o penso sem pensamentos
Porque o digo como as minhas palavras o dizem.

Uma vez chamaram-me poeta materialista,
E eu admirei-me, porque não julgava
Que se me pudesse chamar qualquer coisa.
Eu nem sequer sou poeta: vejo.
Se o que escrevo tem valor, não sou eu que o tenho:
O valor está ali, nos meus versos.
Tudo isso é absolutamente independente da minha vontade.

1269- Morte/vida
























Um dia ocupado a tratar do jardim.

Sinais de vida de algumas árvores a acordar do sono de Inverno
Sinais de morte do limoeiro que definitivamente se foi

Hoje tratou-se de o arrancar e de ir colocando os troncos na lareira. Gosto de saber que as cinzas dos ramos e árvores do meu jardim serão lançadas à terra de novo e servirão de adubo para as novas flores e frutos de daqui a nada despontarão

Ciclo de vida que se torna morte e que retoma a vida...

Mais pela tarde foi tempo de mudar outra árvore do sítio de modo a ter mais sol ocupando o espaço do limoeiro

"O semeador saiu a semear..."

Debulhar o trigo
Recolher cada bago do trigo
Forjar no trigo o milagre do pão
E se fartar de pão

Decepar a cana
Recolher a garapa da cana
Roubar da cana a doçura do mel
Se lambuzar de mel

Afagar a terra
Conhecer os desejos da terra
Cio da terra, a propícia estação
E fecundar o chão

Chico Buarque

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

1268 - Imagens\impressões

Já o escrevi várias vezes, mas tenho mesmo que repetir uma e outra vez! Adoro as cores de Lisboa e os reflexos da luz do sol nas fachadas.

Por estes dias, a duração dos momentos de sol é cada vez maior e numa semana, no mesmo local e à mesma hora, conseguem-se obter cores absolutamente fantásticas pois o sol está cada vez mais alto. o que é giro é que a luz de hoje já é completamente diferente da que era há uma semana atrás

Daqui a uns dias, do comboio, já se conseguem ver amarelos, vermelhos e cor de laranja nas janelas das casas e sobretudo no palácio das necessidades ao sol posto . ..

As cores de hoje estavam fantásticas. O céu parecia uma pintura e o rio tinha um prateado soberbo!



Estudo sobre a leitura em Espanha

Segundo o jornal El dia

Más del 60 por ciento de los españoles lee libros


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El 60,3% de la población española mayor de 14 años afirma leer libros, en cualquier formato, ya sea por ocio o por motivos de trabajo o estudios. Estos lectores han leído una media de 9,6 libros en los últimos doce meses. Asimismo, se ha observado una tendencia creciente en el número de lectores frecuentes que ha pasado del 36,0% al 43,7% en los últimos diez años.

Estas son algunas de las principales conclusiones que se recogen en el Barómetro de hábitos de lectura y compra de libros elaborado por la Federación de Gremios de Editores de España (FGEE) con el patrocinio de la Dirección General del Libro, Archivos y Bibliotecas del Ministerio de Cultura.

Los datos del Barómetro vuelven a poner de manifiesto que el porcentaje de mujeres lectoras (61,6%) es superior al de los hombres (52,2%). Además, se observa cómo el índice de lectura entre las mujeres ha aumentado entre 2008 y 2010 en 4,4 puntos mientras que el de los hombres sólo se ha incrementado en 0,3 puntos porcentuales. La tasa de lectura disminuye según aumenta la edad y el porcentaje de lectores es mayor entre la población con estudios superiores.

El entretenimiento sigue siendo el principal motivo de lectura de libros (85,2%). El 9,1% de los encuestados lee para mejorar su nivel cultural y un 5,5% por estudio, si bien son los jóvenes de entre 14 y 24 años los que aseguran, en mayor proporción (21%), hacerlo por este motivo.

Entre las materias del último libro leído, los lectores se decantan por la obras de literatura (78,9%), principalmente novela y cuento (75%), seguida a mucha distancia por los libros de humanidades y ciencias sociales (12,8%) y los Científico-técnicos, medicina y biología (2,7%).

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LECTURA DIGITAL

Aproximadamente, la mitad de la población española de 14 años o más afirma leer en formato digital (47,8%). Se entiende como lector en soporte digital, aquel que lee, al menos con una frecuencia trimestral, en un ordenador, un teléfono móvil, una agenda electrónica o un e-Reader.

La lectura de libros en este formato alcanza, no obstante, el 5,3% de la población. Los españoles siguen empleando mayoritariamente el soporte digital para la lectura de periódicos (30,7%) o para la consulta de webs, blog, foros, etcétera (37,6%).

Prácticamente la totalidad de los lectores digitales lee a través del ordenador 46,5%), el 6,9% emplea el móvil o la agenda electrónica. Sólo un 1,3% lee mediante un e-Reader.



El 5,3% de la población de España lee libros en soporte digital, pero sólo el 1,0% lo hace a través del e-Reader.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

1266 - Mas anda tudo baralhado por aqui?



Mas anda a Natureza meio amalucada no meu jardim ou quê?
Então não é que à hora de almoço tive um tempito para ir ao jardim e descubro que o meu jasmim, os narcisos e as roseiras estão quase, quase a aparecer numa explosão de cor! Ena a Primavera ainda em Janeiro!!! o que é isto? e eu cheio de frio que quase nem consigo usufruir do pequeno momento que irá ser a explosão de cor...








































































Mas, eis que me decido a ir ver o que se passa com a Magnólia e a Amendoeira que já deviam estar em flor... (e eu que já vi ambas em flor numas casas aqui pelos meus lados ;-( )

Deparo-me com isto... 2 tronquitos miseráveis... Então como é Srª Primavera? isto vale tudo? o que devia ser não é e o que é não devia ser? vamos lá a ver se isto entra nos eixos...








































Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.
Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já foi coberto de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

1265 - Como à espera do comboio na paragem do autocarro

















Vieste tarde, meu amor! Começa
em mim caindo a neve devagar;
morre o sol, o Outono cai depressa
e o Inverno, finalmente, vai chegar;

e se hoje andamos juntos, na promessa
de caminharmos toda a vida a par,
daqui a pouco, o teu amor tem pressa
e o meu, daqui a pouco, há-de cansar.

Dentro em breve, por trás das velhas portas,
dando um ao outro só palavras mortas,
que rolam mudas pelas nossas vidas,

ouviremos, nas noites desoladas:
tu, a canção das vozes desejadas;
eu, o chorar das vozes esquecidas.

Joaquim Nunes Claro

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

1264 - impressões/emoções



















Gosto das cores da minha Lisboa ao pôr do sol
Não gosto das tardes cinzentas que não me permitem ver o sol nestas fachadas e vidros

Gosto de viajar, de ler
Não gosto de viajar em stress ou com todos a darem "bitaites"

Gosto do silêncio, da solidão, sem me sentir só,
Não gosto de conviver com gente de quem não gosto ou de que "cortei"

Gosto da cor, da água, do mar, de ouvir música, de sair, de não parar, de parar, de descansar.
Não gosto de não parar, de parar, de descansar

Gosto de pintar com a mente e captar o momento
Não gosto de falta de imaginação e do igual

Gosto da complexidade da vida, das suas contradições e dos seus lados opostos.
Não gosto da complexidade da vida e das suas contradições

Gosto de ganhar e de perder
Não gosto de perder quando estou certo

Gosto de uma política justa, mesmo que me prejudique
Não gosto de demagogia nem de demagogos (que cada vez os há mais)

Gosto de partilhar com quem gosto
Não gosto de sorrir para quem não me merece

Gosto de gente honesta
Não gosto que me façam passar por parvo

Gosto de partir para outra e de desligar quando estou mesmo desiludido
Não gosto de acordar de manhã e ver que nada mudou

Gosto de conduzir sem objectivo e ouvindo música
Não gosto do previsto e acomodado

Gosto de me perder a olhar
Não gosto do feio e desleixado


Adoro a luz e cores de Lisboa

Adoro Lisboa




Madredeus

Composição: Pedro Ayres Magalhães E Fernando Júdice

Lisboa tem histórias de reis,
De mares e de selvas
Lisboa tem histórias de hotéis,
De espiões e de guerras
Lisboa tem lendas de heróis,
Princesas, donzelas
Lisboa tem lendas do cais,
Do fado e navalhas;

Lisboa tem a tradição,
Dos bairros antigos
Vinho e sardinhas no verão
à beira do rio
Lisboa tem os rés-do-chão
E as altas mansardas
E há que descer e subir
Por estreitas escadas

Adoro Lisboa,
Eu quero-lhe bem,
Gosto de ver as gaivotas nos céus de Belém.

Adoro Lisboa,
E as histórias que tem
E sei que há muita gente
Que adora também

domingo, 23 de janeiro de 2011

As mais belas coisas do mundo... e dos livros

Sempre que um livro me "marca" (especialmente quando nem sequer necessito de recorrer ao marcador porque o li de um fôlego só) lembro-me deste "cantinho" onde se reúnem partilhas entusiasmadas!

Trago-vos As mais belas coisas do mundo, de Valter Hugo Mãe (Editora objectiva).

De uma beleza e simplicidade enorme, impressiona pela forma como nos conduz pelo prazer da descoberta. Sei que por aqui passam muitos dos que nas salas de aula, nas bibliotecas tentam semear o prazer pela descoberta (cf. o chavão da pesquisa). Neste livro encontrarão uma história que constitui uma espécie de didáctica acerca dessa arte. Um álbum que atravessa várias idades e contribui para elevar os índices de literacia emocional.:)

Deliciem-se com esta passagem:

"Por causa dos mistérios, o meu avô inventava sempre motivos para me sugerir uma pesquisa, uma busca, um problema qualquer que arranjava para me pôr a pensar melhor acerca de um qualquer assunto. Umas vezes eu tinha de desmontar as pistas que me deixava e que me levariam a um doce, a um brinquedo, a um livro ou a um novo jogo."

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

1261 - era uma vez um gato maltês...

Estou muitíssimo desiludido com a minha Maria José (a minha gata). Vejam lá que só mia e caça uns ratitos que põe à porta de casa...

Isto sim, é um GATO: Culto, com propensão à arte...

1260 - A selva



Acabei na 6ª feira de o ler (também só demorei uma semana para o devorar!)

É uma obra magnífica que retrata a vida dos seringueiros que retiravam a borracha das árvores na Selva Amazónica.
É um retrato de vidas que partiam à procura de riquezas e que acabavam na maior das explorações e sacrifícios às mãos de um qualquer fazendeiro.

É uma obra com alguns pontos de contacto com o "levantado do chão" de José Saramago (que relata a vida dos camponeses no Alentejo na luta pelo trabalho e sustento) mas com um estilo de escrita completamente diferente.

Chega a comover a história do Alberto, português, que vai para a Amazónia e lá passa toda uma experiência de solidariedade, desespero, solidão, prisão...

O desenrolar da trama também não deixa de nos fascinar pela surpresa dos desenvolvimentos e pelos riscos que o personagem central vai correndo querendo o leitor que este possa enfim se libertar daquela vida de semi-escravatura.

É um livro que ficará nas minhas escolhas referente aos livros da minha vida

---

"Ferreira de Castro é um dos mais significativos romancistas portugueses do século XX, traduzido e lido em todo o mundo e também dos mais apreciados em toda a vasta comunidade onde se fala língua portuguesa. Publicado em 1930, este é um documento com um fundo estético sobre a vida dos seringueiros na floresta amazónica, presenciada pelo autor que, na condição de 'exilado', foi 'aprisionado' na selva para a extracção do látex, durante o período de 1910 a 1914, quando o primeiro grande ciclo da borracha entrava em crise.
"A Selva" é um documentário cativante que, segundo o crítico Massaud Moisés, é considerado o melhor dos romances de aventura que contribui como reafirmação dos laços entre brasileiros e portugueses."

sábado, 15 de janeiro de 2011

1258 - Intuições... Feed-backs... Desilusões II

























Ainda esta dialéctica razão/coração...

Não é de fácil gestão a vida de quem se deixa guiar assim...

Amar ou odiar ou tudo ou nada. É um raio de um feitio que não permite meios termos. Sol ou tempestade, o que é isso de brisa? não sei, só conheço a calmaria e o vendaval!

---

Eu queria que o Amor estivesse realmente no coração,
e também a Bondade,
e a Sinceridade,
e tudo, e tudo o mais, tudo estivesse realmente no coração
Então poderia dizer-vos:
"Meus amados irmãos,
falo-vos do coração",
ou então:
"com o coração nas mãos".

Mas o meu coração é como o dos compêndios
Tem duas válvulas ( a tricúspide e a mitral)
e os seus compartimentos (duas aurículas e dois ventrículos).
O sangue a circular contrai-os e distende-os
segundo a obrigação das leis dos movimentos.

Por vezes acontece
ver-se um homem, sem querer, com os lábios apertados
e uma lâmina baça e agreste, que endurece
a luz nos olhos em bisel cortados.
Parece então que o coração estremece.
Mas não.
Sabe-se, e muito bem, com fundamento prático,
que esse vento que sopra e ateia os incêndios,
é coisa do simpático.
Vem tudo nos compêndios.

Então meninos!
Vamos à lição!
Em quantas partes se divide o coração?

António Gedeão

---
Por tanto amor
Por tanta emoção
A vida me fez assim
Doce ou atroz
Manso ou feroz
Eu caçador de mim

Preso a canções
Entregue a paixões
Que nunca tiveram fim
Vou me encontrar
Longe do meu lugar
Eu, caçador de mim

Nada a temer senão o correr da luta
Nada a fazer senão esquecer o medo
Abrir o peito a força, numa procura
Fugir às armadilhas da mata escura

Longe se vai
Sonhando demais
Mas onde se chega assim
Vou descobrir
O que me faz sentir
Eu, caçador de mim

Milton Nascimento

A Selva - Ferreira de Castro

Acabei esta semana de o ler (também só demorei uma semana para o devorar!)

É uma obra magnífica que retrata a vida dos seringueiros que retiravam a borracha das árvores na Selva Amazónica.
É um retrato de vidas que partiam à procura de riquezas e que acabavam na maior das explorações e sacrifícios às mãos de um qualquer fazendeiro.

É uma obra com alguns pontos de contacto com o "levantado do chão" de José Saramago (que relata a vida dos camponeses no Alentejo na luta pelo trabalho e sustento) mas com um estilo de escrita completamente diferente.

Chega a comover a história do Alberto, português, que vai para a Amazónia e lá passa toda uma experiência de solidariedade, desespero, solidão, prisão...

O desenrolar da trama também não deixa de nos fascinar pela surpresa dos desenvolvimentos e pelos riscos que o personagem central vai correndo querendo o leitor que este possa enfim se libertar daquela vida de semi-escravatura.

É um livro que ficará nas minhas escolhas referente aos livros da minha vida

---
"Ferreira de Castro é um dos mais significativos romancistas portugueses do século XX, traduzido e lido em todo o mundo e também dos mais apreciados em toda a vasta comunidade onde se fala língua portuguesa. Publicado em 1930, este é um documento com um fundo estético sobre a vida dos seringueiros na floresta amazónica, presenciada pelo autor que, na condição de 'exilado', foi 'aprisionado' na selva para a extracção do látex, durante o período de 1910 a 1914, quando o primeiro grande ciclo da borracha entrava em crise.
"A Selva" é um documentário cativante que, segundo o crítico Massaud Moisés, é considerado o melhor dos romances de aventura que contribui como reafirmação dos laços entre brasileiros e portugueses."

1257 - Intuições... Feed-backs... Desilusões


Este início do ano tem sido muito intenso e chegado ao 2º fim de semana do ano já parece que se passaram anos desde a pausa de Natal.

Por agora olho pela perspectiva de achar que a minha intuição estava certa quando combati há tempos atrás determinadas opções/medidas que não me pareceram bem.

(não, não me considero nenhum herói e falta-me muito para atingir os calcanhares de gente muito lutadora e coerente)

No entanto, tomei algumas atitudes que me custaram caro (fruto de impulso?, teimosia?, defeito?) ou como forma de não ceder a princípios e poder-me olhar ao espelho de manhã.

Vejo agora que a maior parte dos colegas que comigo partilham a desbravar de caminhos e a vivência quotidiana de procurar realizar-se pessoal e profissionalmente ganhando ainda o pão de cada dia me acolhem com amizade e comigo têm conversas mais ou menos longas/mais ou menos íntimas

Afinal, não estava errado (nem foi erro de percepção). Este meu coração tem a mania de mandar em mim e põe-se a caminho expondo-me a consequências mais ou menos imprevisíveis. Paciência!

(Podia ser mais sensato? podia
Sou ainda muito ingénuo e por vezes D. Quixote? (sim, mas também acho que com 40 e muitos já me vejo mais sabido e muito menos ingénuo. Será bom, será mau? Acho que é uma aprendizagem e uma adequação a uma vida em sociedade - doutro modo seria um inadaptado)

Por estes dias as conversas versam o tema da desilusão e desencanto... Como foi possível que determinados ambientes e pessoas mudassem tanto?

Que bom sentir que a minha intuição funciona e que não se podia estar de bem com Deus e com o Diabo? que bom perceber que tinha razão, que bom perceber que a frontalidade merece reconhecimento e que muitas amizades ficaram... e que me são cobradas as ausências e que esperam um bocadinho de atenção da minha parte...

---

Também foi bom ter participado numa visita de estudo a meio da semana. Os miúdos foram super bem comportados. Souberam estar uns com os outros e com os professores com muita simplicidade, doação e alegria tão própria deles. Gostei de perceber que cada vez sou melhor professor a nível dos afectos. E o dia de Sol que esteve (!) fantástico

(lembro-me bem que com os meus 19, 20, 21, 22, e mais alguns anos me centrava muito em mim com medo de perder o controle e com dúvidas na minha capacidade)

Vejo-me agora sem grandes problemas de fazer entender aos miúdos sem necessidade de gritar e de me impor que há momentos para rir e há momentos para trabalhar e aprender. Há ainda todos os momentos para ser afectuoso sem que isso me levar a perder o pé com eles ao nível de estes perceberem que há um professor e há alunos.
Gostei muito dos "toques" que dei e que recebi nesse dia.
Estes cabelos brancos e alguma serenidade e postura fazem milagres e os miúdos gostam de se sentir seguros e de saber que são ouvidos com atenção!

Este meu coração não tem mesmo cura! Razão/Coração. Este equilíbrio tão difícil de alcançar mas a consolação de poder dizer se morresse hoje que procurei sempre ser verdadeiro (ou quase sempre pois não sou nenhum modelo de perfeição) com tudo de bom e de mau que isso possa ter

Talvez deva aprender ainda mais a não ainda tão ingénuo mas...
Quem deixa coração voar tem que se habituar a momentos de exaltação, de desilusão e de paz. Confiar nas pessoas até ao limite tem estas consequências. Ganha-se tudo ou perde-se tudo. Não há cá meios termos


A côr do meu batuque
Tem o toque, tem o som
Da minha voz
Vermelho, vermelhaço
Vermelhusco, vermelhante
Vermelhão...


O brilho do meu canto tem o tom
E a expressão da minha côr
Vermelho!...

A côr do meu batuque
Tem o toque, tem o som
Da minha voz
Vermelho, vermelhaço
Vermelhusco, vermelhante
Vermelhão...

Meu coração é vermelho
Hei! Hei! Hei!
De vermelho vive o coração
He Ho! He Ho!
Tudo é garantido
Após a rosa vermelhar
Tudo é garantido
Após o sol vermelhecer...

Vermelhou o curral
A ideologia do folclore
Avermelhou!
Vermelhou a paixão
O fogo de artifício
Da vitória vermelhou...(2x)

A côr do meu batuque
Tem o toque, tem o som
Da minha voz
Vermelho, vermelhaço
Vermelhusco, vermelhante
Vermelhão...

O velho comunista se aliançou
Ao rubro do rubor do meu amor
O brilho do meu canto tem o tom
E a expressão da minha côr
Vermelho!...

A côr do meu batuque
Tem o toque, tem o som
Da minha voz
Vermelho, vermelhaço
Vermelhusco, vermelhante
Vermelhão...

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

A Biblioteca (múltiplas leituras)



O que saberei, o que não saberei nunca,
está na Biblioteca em verde murmúrio
de flauta-percalina eternamente.

Carlos Drummond de Andrade

Textos produzidos pelos alunos do 7ºAno, após terem observado a gravura "Biblioteca" de Vieira da Silva:

A biblioteca é um sítio inspirador, onde podemos alargar o nosso conhecimento e dar asas à nossa imaginação. É um local encantador que faz lembrar os velhos sábios rodeados pelas belíssimas e inimagináveis histórias que têm tanto para contar.

Uma biblioteca pode ser: fantástica, mágica, pura, silenciosa, catita, mas por vezes secante, desconhecida, enorme, linda, muito incrível...

Enfim... a biblioteca pode ser um espaço de sonho!

Autores:Beatriz, Erika, Sofia e Rui


A biblioteca de Vieira da Silva é colorida, lindíssima, confusa, muito desorganizada, enormíssima, geométrica, silenciosa, obscura, sinistra, divertida, vistosa...

Catarina e Filipa


A biblioteca de Vieira da Silva é grandiosa, bonita, espantosa, colorida, brilhante, com muitos livros, geométrica, única, inovadora, poderosa, valiosa, cultural, vazia, cheia, antiga, diferente, estranha, desajeitada, irresistível, luminosa...

Pedro e Margarida


Na biblioteca, os livros são objectos fascinantes, mais do que os computadores.

Uns são românticos, engraçados, amarelos, vermelhos, de todas as cores possíveis, grandes e pequenos, muito interessantes, têm muitas maravilhas que podemos sentir ao lê-los se olharmos com olhos de ver!

Ariana, Mariana, Rita

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

1256 - Quase Perfeito



Quase Perfeito
Donna Maria
Composição: Letra: Miguel A. Majer, Música: Miguel Rebelo

Sabe bem ter-te por perto
Sabe bem tudo tão certo
Sabe bem quando te espero
Sabe bem beber quem quero

Quase que não chegava
A tempo de me deliciar
Quase que não chegava
A horas de te abraçar
Quase que não recebia
A prenda prometida
Quase que não devia
Existir tal companhia

Não me lembras o céu
Nem nada que se pareça
Não me lembras a lua
Nem nada que se escureça
Se um dia me sinto nua
Tomara que a terra estremeça
Que a minha boca na tua
Eu confesso não sai da cabeça

Se um beijo é quase perfeito
Perdidos num rio sem leito
Que dirá se o tempo nos der
O tempo a que temos direito

Se um dia um anjo fizer
A seta bater-te no peito
Se um dia o diabo quiser
Faremos o crime perfeito

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

1255 - A lógica do "economicês"


Esta lógica dos objectivos, iniciativas estratégicas, organizações, objectivos da organização e quejandas aplicadas acriticamente e todas as áreas da vida humana fazem mesmo muito pouco sentido.

É muito interessante como construção teórica e fará sentido para algumas fábricas que produzem bens de consumo. Transferir esta lógica empresarial sem mais a todos os sectores sociais fará sentido?

Felizmente que há alguém que sabe dizer que o Rei vai nu, ainda que seja fora deste país (o que mostra que, infelizmente, estas modas passam por todas as sociedades de uma forma acrítica)

1254 - Portugal 2011
















Quebra, não quebra?
Resiste, não resiste?
O milagre da sobrevivência?
Quem nos fez chegar a isto?
Não nos partirão a espinha?
Ao qu'isto chegou?
Resistir é vencer?

Quando é que "eles" se vão embora de vez que já não há pachorra
Sobrevivi!

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

A importância de leitura

Afina lfazer leitores faz todo o sentido! e se esses leitores forem feitos na Biblioteca ainda será melhor!

1253 - Viajando

Viagem na palma da mão


Agarras-te à hora em que o tempo não passou
Mergulhas nas cores que a loucura te emprestou
E quando te vês para lá do espelho
Encontras a solidão.

Descobres o mundo de quem tem pouco a perder
E sobes às estrelas que ontem não podias ver
E perdes o medo de estar só
No meio da multidão

Tradições
Atrás de contradições
Fizeram-te abrir os olhos
Podes dizer: eu sou.


Jorge Palma


(ora aqui está uma música à qual nunca tinha dado muita atenção ao poema, até hoje...)

A louca da casa

“A imaginação é a louca da casa.”
Santa Teresa de Jesus


Este foi o último livro que li. Confesso que fiquei meio perplexo no início sobre do que se tratava: Um romance? Um ensaio? Uma autobiografia? Como já tinha lido a História do Rei transparente fiquei confuso...

A Louca da Casa é uma viagem através do misterioso universo da fantasia, da criação artística e das recordações mais secretas da própria autora.

Rosa Montero empreende uma viagem ao mais profundo do seu ser através de um jogo narrativo pleno de surpresas, onde literatura e vida se misturam num cocktail afrodisíaco de biografias alheias e de autobiografia romanceada. Vai revelando os segredos da corporação dos escritores. Surgem então os fingimentos de Goethe, a doença de fracasso de Walzer e a síndrome do sucesso de Capote, o drama do reconhecimento póstumo com Melville, o egoísmo de Tolstoi, a vaidade de Calvino, de modo que as entranhas da criação literária vão se tornando íntimas Aos poucos, para a surpresa de quem lê, a autora imagina e cria uma narrativa literária com a sua própria biografia,
Todavia, não devemos fiar-nos por completo em tudo o que a autora conta sobre si mesma: as recordações não são sempre o que parecem. Um livro sobre a fantasia e os sonhos, a loucura e a paixão, os medos e as dúvidas dos escritores – mas, também, de cada um de nós –, A Louca da Casa é, sobretudo, a tórrida história de amor que existe entre Rosa Montero e a sua própria imaginação.

Gostei sobretudo da reflexão sobre a necessidade que o escritor tem de escrever e ler e de tudo o que isso implica

domingo, 9 de janeiro de 2011

1252 - Que semana tão compriiida



















Parece que passou um mês desde 2ª feira!
Que semana tão longa

---

É engraçado, este é um pensamento que já há muito tempo não tinha. Lembro-me das idas e vindas de comboio de Lisboa para Coimbra enquanto estudante. Parecia que eram viagens no tempo e que entrava noutra dimensão

Esta semana pareceu-me igual. De tão cheia e multifacetada já nem reconheço o João de dia 2 de Janeiro. Quem era esse que agora me parece tão estranho?


E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se envolam tantos anos.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

1251 - O Amor e a loucura


A Loucura resolveu convidar os amigos para tomar um café em sua casa.
Todos os convidados foram. Após tomarem café a Loucura propôs:
- Vamos brincar de esconde-esconde?
Todos aceitaram, menos o Medo e a Preguiça.
- 1, 2, 3, ... - a Loucura começou a contar.
A Pressa escondeu-se primeiro, num lugar qualquer.
A Timidez, tímida como sempre, escondeu-se na copa de uma árvore.
A Alegria correu para o meio do jardim.
Já a Tristeza começou a chorar, pois não achava um local apropriado para se esconder.
A Inveja acompanhou o Triunfo e escondeu-se perto dele, debaixo de uma pedra.
O Desespero ficou desesperado ao ver que a Loucura já estava no noventa e nove ...
- Cem, gritou a Loucura. Vou começar a procurar.
A primeira a aparecer foi a Curiosidade, que já não aguentava mais.
Ao olhar para o lado, a Loucura viu a Dúvida em cima de uma cerca sem saber em qual dos lados iria se esconder.
E assim foram aparecendo a Alegria, a Tristeza, a Timidez...
Quando estavam todos reunidos, a Curiosidade perguntou: - Onde está o Amor?
Ninguém o tinha visto.
A Loucura começou a procurá-lo. Procurou em cima da montanha, nos rios, debaixo das pedras e nada do Amor aparecer.
Procurando por todos os lados a Loucura viu uma roseira, pegou um pauzinho e começou a vasculhar entre os galhos, quando de repente ouviu um grito.
Era o Amor, que havia furado o olho com espinho. A Loucura não sabia o que fazer. Pediu desculpas, implorou pelo perdão do Amor e até prometeu seguir-lhe para sempre.
O Amor aceitou as desculpas.
Desde então, o Amor é cego e a Loucura sempre o acompanha...

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

1249 - Beira mar




Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim.

A tua beleza aumenta quando estamos sós
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho.
Que momentos há em que eu suponho
Seres um milagre criado só para mim.

Sophia de Mello Breyner Andresen























Iemanjá Rainha do Mar

Maria Bethânia
Composição: Pedro Amorim e Paulo César Pinheiro

Quanto nome tem a Rainha do Mar?
Quanto nome tem a Rainha do Mar?

Dandalunda, Janaína,
Marabô, Princesa de Aiocá,
Inaê, Sereia, Mucunã,
Maria, Dona Iemanjá.

Onde ela vive?
Onde ela mora?

Nas águas,
Na loca de pedra,
Num palácio encantado,
No fundo do mar.

O que ela gosta?
O que ela adora?

Perfume,
Flor, espelho e pente
Toda sorte de presente
Pra ela se enfeitar.

Como se saúda a Rainha do Mar?
Como se saúda a Rainha do Mar?

Alodê, Odofiaba,
Minha-mãe, Mãe-d'água,
Odoyá!

Qual é seu dia,
Nossa Senhora?

É dia dois de Fevereiro
Quando na beira da praia
Eu vou me abençoar.

O que ela canta?
Por que ela chora?

Só canta cantiga bonita
Chora quando fica aflita
Se você chorar.

Quem é que já viu a Rainha do Mar?
Quem é que já viu a Rainha do Mar?

Pescador e marinheiro
que escuta a sereia cantar
é com o povo que é praiero
que dona Iemanjá quer se casar.

Beira-Mar

Maria Bethânia

Composição: Roberto Mendes/Capinan

Dentro do mar tem rio...
Dentro de mim tem o quê?
Vento, raio, trovão
As águas do meu querer

Dentro do mar tem rio...
Lágrima, chuva, aguaceiro
Dentro do rio tem um terreiro
Dentro do terreiro tem o quê?

Dentro do raio trovão
E o raio logo se vê
Depois da dor se acende
Tua ausência na canção

Deságua em mim a paixão
No coração de um berreiro
Dentro de você o quê?
Chamas de amor em vão

Um mar de sim e de não
Dentro do mar tem rio
É calmaria e trovão
Dentro de mim tem o quê?

Dentro da dor a canção
Dentro do guerreiro flor
Dama de espada na mão
Dentro de mim tem você

Beira-mar
Beira-mar
Ê ê beira mar
Cheguei agora
Ê ê beira-mar
Beira-mar beira de rio
Ê ê beira-mar

O Primeiro Natal em Portugal

O Primeiro Natal em Portugal


É véspera de Natal. Mas não para Irina. Para ela só será Natal a 7 de Janeiro, quando as aulas tiverem recomeçado.

A mãe aproveita umas horas extra, na pastelaria, para preparar fornadas de bolos-reis.

O pai, antes de sair, marcou-lhe páginas e páginas de trabalhos de casa. É preciso, para poder acompanhar os colegas.

Folheando o dicionário, a pequena ucraniana procura as palavras portuguesas que há-de escrever em frente das que tão bem conhece.

ОЛiВЕДЬ — lápis

ЗОШИТ — caderno

КИГА — livro

ШКОЛА — escola

Tudo diferente! Até o abecedário... Na escola, os outros fazem pouco dela e chamam-lhe “língua de trapos”. Que quererá isso dizer?

Vai à página 190, logo em seguida à 293. Era de calcular...

Tem, no entanto, orgulho em ser a melhor a matemática. Ninguém a bate em contas. Quando a professora entrega os testes e lhe dá vinte, há sempre um grupinho irritado que, no recreio seguinte, se junta, numa roda, à sua volta, cantarolando:



Irina, Irina, Irina,

Que menina tão fina!

Tem cara cor de sal,

Olhos cor de piscina.

Cabelos cor de margarina.

Ai, doem-te as saudades?

Vai tomar aspirina.

Na Ucrânia deixou tantos amigos...

Evita aqueles olhos escuros que se fixam nela, uns curiosos, outros trocistas, outros indiferentes.

Sente-se como uma extraterrestre. Porque é que os pais a mandaram vir?

Isola-se no recreio, a um canto, tentando desvendar a algaraviada das conversas. Às vezes, o Afonso murmura-lhe ao ouvido um segredo:

— Pareces uma fada!

E foge logo a correr.

Que palavrão será “fada”? Nem vale a pena procurar no dicionário. Algumas palavras que lhe dizem nem sequer lá vêm. A princípio ainda perguntou à mulher da limpeza o que significavam mas ela empurrou-a com a esfregona.

— Ordinária! Estes imigrantes mal sabem falar mas fixam logo a porcaria... Porque não voltam para o sítio de onde vieram?

Com lágrimas nos olhos, Irina vai agora à janela e vê as luzinhas acender e apagar nas árvores despidas. Por trás das paredes deslavadas das velhas casas, decerto se celebra a consoada. Como será?

Doze pratos se punham na mesa de festa no Natal da sua terra. Uma em memória de cada apóstolo.

É Natal em Portugal. Que interessa? A família está dispersa. A mãe a fazer bolos-reis que não vai provar porque para os ortodoxos é tempo de sacrifício e jejum. O pai lá anda, na construção civil. Como mais ninguém queria trabalhar na noite de 24, foi, sozinho, pintar um café que está a ser remodelado, ao fundo da rua. Os dois irmãos mais novos ficaram em Priluki, lá longe, com a avó.

Irina aquece a sopa e arranja uma sandes de queijo. Como pesa o silêncio!

De repente, sente um grito abafado no andar de cima. Algum assalto? Alguém que caiu? Não sentiu passos nem o baque de uma queda...

Com o coração a bater, põe-se a espreitar pelo óculo. Nada!

— Acudam! Acudam!

Mais ninguém se encontra no prédio. As lojas do rés-do-chão estão fechadas, os vizinhos do primeiro andar foram de férias. Por cima, na mansarda, mora uma rapariga nova, gorda, pálida.

Irina abalança-se a subir. A porta encontra-se apenas encostada e a miúda entra, a medo. Já ninguém grita. Um gemido fraco ecoa ao fundo do corredor.

Haverá feridos? Tem horror ao sangue. Por um momento, pensa em voltar para trás. Mas prossegue, pé ante pé, até ao quarto.

Deitada na cama, a moça, que ela conhece de vista, geme, agarrada à barriga enorme. Irina aproxima-se, repara que está alagada em suor.

— Ladrão atacar tu? Estar doente?

Tremendo, a outra responde:

— Chama o 112. O bebé vai nascer.

Que será o 112? Estará ela a delirar? Quase desfalece.

Então Irina precipita-se pela escada abaixo. A rua encontra-se deserta. Não conhece ninguém nas redondezas. Corre até ao café onde o pai está a pintar paredes.

— Pai, pai! — grita ela.

Anton desce do escadote, pousa o rolo, inquieto ao ver a filha naquela aflição.

— Que foi? Aconteceu alguma desgraça?

Mal sabe o que se passa, marca um número no telemóvel, dá a morada, pede urgência. Segue-a em passo apressado. Sobre eles desaba uma chuva gelada. Ficam com os cabelos a escorrer, encharcam os sapatos nas poças que, num instante, se formam.

Chegados ao prédio, o ucraniano galga os degraus dois a dois, entra sozinho no quarto da vizinha. A filha fica à espera.

— Irina, ferve uma panela de água. Traz-me um frasco de álcool, uma tesoura, toalhas.

A miúda obedece, confusa.

— Traz-me roupa lavada, para me mudar!

O pintor despe o fato-macaco, sujo de tinta e de pó, na casa de banho, enfia uma camisa branca, umas calças desbotadas. Esfrega as mãos e a tesoura com álcool.

— Irina, a água já ferve?

De novo no quarto, fala pausadamente com a rapariga, em voz alta. Ouve-se tudo cá fora.

— Força! Coragem! Está quase...

De súbito ouve-se o choro de um bebé.

— Entra, Irina — diz, pouco depois, o pai. — Vem ajudar. Já és crescida.

Entrega-lhe o recém-nascido.

A rapariga, na cama desalinhada, sorri.

— Embrulha-o num xailinho. Está na gaveta do meio.

Irina aconchega aquele corpo tão pequenino e frágil. Embala-o devagarinho, como fazia com as bonecas. Uma minúscula mãozinha aperta então o seu polegar.

O alarme de uma ambulância apita. Pára à entrada do edifício. Duas enfermeiras precipitam-se pela porta dentro.

— Então, viram-se atrapalhados? Um parto faz sempre confusão, principalmente aos homens.

— Sou médico — confessa o ucraniano. — Mas, em Portugal, ando nas obras...

As enfermeiras cruzam um olhar subitamente triste. Examinam a criança.

— O bebé nasceu no dia de Natal. É o nosso Menino Jesus.

A mãe olha para o homem e pergunta:

— Como é que o doutor se chama?

— Anton.

— António? Quer ser o padrinho? Vou pôr-lhe o seu nome.

As enfermeiras levam a rapariga e o bebé para a ambulância.

— Vão dar um passeio até à maternidade. Estão ambos óptimos.

— Manhã nós visitar! — exclama a garota.

Já passa da meia-noite. Pai e filha descem até ao patamar do primeiro andar. Na escada nunca há luz. Felizmente a gente do 112 usa lanternas... Mas, logo que o pessoal da ambulância se afasta, a escuridão instala-se. Às apalpadelas, o pai mete a chave na fechadura. Tropeça num embrulho.

— Que será? — espanta-se ele. — Esta é uma noite de surpresas.

Sobre o tapete de cairo está um embrulho enfeitado com um laçarote cor-de-rosa. Traz um bilhete preso com fita-cola.



Para uma fada loura.

com amizade



A menina abre-o. É um conjunto de canetas de ponta de feltro.

— O Pai Natal português não se esqueceu de ti — ri-se o médico.

— O Afonso é a única pessoa que me trata por fada — replica a Irina, um bocadinho corada.

Corre para o dicionário, passando as páginas até à número 159 e exclama, radiante:



OЗНАКА — fada



Depois, pega numa folha de papel e desenha, a amarelo, uma estrela a brilhar, a brilhar, a brilhar.





Luísa Ducla Soares

Há sempre uma estrela no Natal

Porto, Civilização Editora, 2006

1248 - Sem Título

Para guardar na caixa das recordações



domingo, 2 de janeiro de 2011

1247 - 31 de Dezembro 2010

Lembranças de um excelente 31 de Dezembro...

Lendo um bom livro...























à beira mar até ao por do sol




































Sobretudo tendo a sorte de ouvir uma música de que me apaixonei lá pelos idos de Junho e que me fez ter forças para lutar e ir para a frente de raiva! fossem todos os dias de 2011 assim!