sábado, 27 de junho de 2009

847 - Notas soltas V

1 - De vez em quando há bom senso...

lê-se no público de hoje que:

Pepinos curvos e cenouras nodosas regressam aos mercados
26.06.2009 - 16h35 Andreia Sanches
É já para quarta-feira que está previsto o grande regresso: pepinos curvos, alhos pequenos, cenouras nodosas vão voltar a conquistar o seu lugar nas bancas. Entram em vigor as novas regras que permitem a venda de frutos e produtos hortícolas “deformados”.

As regras comuns de calibragem na União Europeia foram impostas há várias décadas pelos Estados-membros. Mas no final do ano foi anunciado que as normas de comercialização específicas para 26 produtos iam ser revistas. Os couves-repolho já não têm que ser perfeitas. Os damascos, alcachofras, espargos, abacates, também não... beringelas tortas também têm direito a ser compradas.



De facto esta mania de legislar e querer regular tudo e todos só passava pela cabeça de uns quantos burocratas. Foi a fase da abundância e do luxo. Há crises que vêm por bem... (sim porque essa ideia de pagar ao agricultor para não produzir...)

2 - É maravilhosa a forma como a natureza se rege:

Os quatro gatitos que por aqui andavam partiram...
É muito inteligente a natureza! A mãe gata teve quatro gatitos. Enquanto achou que havia perigo para eles e os amamentava, elegeu o nosso jardim como local seguro para estes estarem.

Há cerca de uma semana que não os vejo (à mãe e filhos) percebo agora que é tempo de estes aprenderem a caçar. A mãe deve estar a desmamá-los...
Sim, faz todo o sentido, estava no tempo de estes aprenderem a caçar, pois as suas últimas brincadeiras no jardim eram atirar-se a tudo o que mexia, fosse uma borboleta, uma cana abanada pelo vento, ...

Faz sentido! foram aprender a alimentar-se e esta casa ainda não é propriamente rica em alimento!

Daqui a uns dias verei a mudança neles operada!

846 - Bibliotecas escolares passam a ter coordenador a tempo inteiro

A partir do ano lectivo de 2009-2010 a organização e gestão das bibliotecas escolares estará a cargo de professores bibliotecários a tempo inteiro que devem desenvolver estratégias e políticas que garantam a rentabilização de recursos e investimentos e a(s) coloquem ao serviço da escola, do processo formativo e das aprendizagens dos alunos.

ver portaria aqui

quinta-feira, 25 de junho de 2009

845 - Por vezes há silêncios ...



Quinto poema do pescador


Eu não sei de oração senão perguntas
ou silêncios ou gestos ou ficar
de noite frente ao mar não de mãos juntas
mas a pescar.


Não pesco só nas águas mas nos céus
e a minha pesca é quase uma oração
porque dou graças sem saber se Deus
é sim ou não.

Manuel Alegre


(por vezes há silêncios que podem ser procura ou presença)

segunda-feira, 22 de junho de 2009

843 - Quando uma tarde nos sabe a férias



Apesar de viver perto da praia, a minha época balnear começa sempre tarde. Infelizmente, por desgraça de feitio dedico-me muito mais à escola do que certas administrações mereciam que o fizesse... Daí que, durante e após as aulas raramente me sobre tempo para dar um pulo à praia, mesmo ao fim de semana. Não são raros os anos em que o meu primeiro banho de verão acontece já a meio de Julho.

Hoje, recebi um convite irrecusável da família e lá parti para Sesimbra após o almoço. Cheguei à praia já após as 5, mas soube-me pela vida. A água óptima, o sol quentinho, o livro, a família, o sobrinho, a areia e as brincadeiras sem olhar a formalismos e convencionalismos. Apenas brincar, olhos nos olhos...

Com um jantar em casa do irmão, pareceu-me estar em férias
(Ah, aquela cervejinha bebida ao fim da tarde ao por do sol...)

Afinal! até se pode ter tempo de qualidade! é só querer!

Trabalho? que trabalhem outros pois eu já dei, esta semana muito mais que as devidas 35 horas. Bem contadinhas devem ter andado pelas 55-60 horas ou mais! ´
Se houver quem duvide, desengane-se, pois tenho testemunhas. Só na passada 6ª feira estive a trabalhar das 9h às 24h sem vir a casa.

Basta!

quinta-feira, 18 de junho de 2009

840 - aprendizes de gente


Na sequência do post 654 , 624 e de alguns outros por aqui espalhados

Depois de alguns dias de ausência por estas bandas, a gata mãe apareceu esta semana (2ª feira) e trazia consigo quatro aprendizes. São mesmo a carinha do pai.

Não deixa de ser simpático que uma mãe tão independente escolha esta humilde casa como de confiança para criar os filhotes.
Estes têm sido a grande atracção dos da casa ao longo destes dias. Por aqui têm ficado a aprender na grande escola da vida: Trepam às roseiras e têm medo de descer, fazem vez para mamar, não deixam que ningúem se aproxime pois na pequenês dos seus poucos dias já se sabem assanhar, dão pequenos passos à descoberta,...

A mãe, essa olha para a gente e nada faz! Menos mal!

Já os baptizamos aos 4: O xau-min, o shop-soi, o "panisgas" e o ... Claro que os nomes indicam fofura que eles ainda têm...

quarta-feira, 17 de junho de 2009

839 - É só querer!
















Há um lugar longe de se ver, onde o azul passou.
Já conheci e por lá passei, onde o Sonho andou.
Recordei, num abraço o dia.

Faço crescer a vontade, só, de olhar para trás,
mas não mudará mesmo o lugar, só o tempo o faz.
Vou andar, respirar a vida.

O sonho vai, o sonho é... correr e mudar
Sem voltar para... O tempo de amar?
É só deixar o mundo para trás... É só querer.

Solto no ar este meu querer, vive, não mudou.
Cresce o Amor, sente-se no céu o que já mudou.
Sou um só ser que quer a Vida.

domingo, 14 de junho de 2009

838 - No tempo dos amores perfeitos




A primeira noite em que te vi,
Senti um calor dentro de mim,
Perguntei quem eras tu,
Tive medo mas cheguei perto de ti,
Sem saber...

A primeira vez que os lábios sentem a mágoa de sal,
O amor dá-nos mais dor que prazer...
A primeira vez que os olhos sabem ver que afinal,
O amor dá-nos mais dor que prazer...

Lembro-me do dia em que te vi,
Junto aquele banco de jardim,
Olhaste para mim e eu,
Tive medo mas cheguei perto de ti,
Sem saber...

A primeira vez que os lábios sentem a mágoa de sal,
O amor dá-nos mais dor que prazer...
A primeira vez que os olhos sabem ver que afinal,
O amor dá-nos mais dor que prazer...
...
A primeira vez que os lábios sentem a mágoa de sal
O amor dá-nos mais dor que prazer...
A primeira vez que os olhos sabem ver que afinal,
O amor dá-nos mais dor que prazer...
uuuuuhhh whoaaaa whoaaaa... que prazer...
uuuuuhhh whoaaaa whoaaaa... que prazer...
uuuuuhhh whoaaaa whoaaaa...

Aramac, Mágoa de sal

837 - Faz as contas ao suor
























Sim, eu sei... Já publiquei isto antes. Mas, quem disse que a vida era sempre original e que não há nada de novo debaixo do céu?



As canseiras desta vida - José Mário Branco



Letra e música: José Mário Branco
Victor Almeida
(baseado em "A mãe" de Bertold Brecht)
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As canseiras desta vida
tanta mãe envelhecida
a escovar
a escovar
a jaqueta carcomida
fica um farrapo a brilhar

Cozinheira que se esmera
faz a sopa de miséria
a contar
a contar
os tostões da minha féria
e a panela a protestar

Dás as voltas ao suor
fim do mês é dia 30
e a sexta é depois da quinta
sempre de mal a pior

E cada um se lamenta
que isto assim não pode ser
que esta vida não se aguenta
-o que é que se há-de fazer?

Corta a carne, corta o peixe
não há pão que o preço deixe
a poupar
a poupar
a notinha que se queixa
tão difícil de ganhar

Anda a mãe do passarinho
a acartar o pão pró ninho
a cansar
a cansar
com a lama do caminho
só se sabe lamentar

É mentira, é verdade
vai o tempo, vem a idade
a esticar
a esticar
a ilusão de liberdade
pra morrer sem acordar

É na morte ou é na vida
que está a chave escondida
do portão
do portão
deste beco sem saída
-qual será a solução?

sábado, 13 de junho de 2009

836 - Kronos devora os seus filhos


Tick-tack] 1ª ecografia. Quantas vezes bateu o meu coração até ver o sol [tick] e a lua [tack]? Quarto minguante, 23:07 [tack][Tick] Dizem que aparento ter a idade que tenho mas sinto-me velho. As horas estão gastas, todos os dias há 7 horas, há 17 horas, há 20 horas.

[Tick-tack] O som que nos desperta os sentidos [tick] 7 horas, manhã de nevoeiro. Quantas vezes teria pestanejado se não tivesse dormido? Talvez aguente 10 segundos sem pestanejar.

[tack] O tempo não pára enquanto dormimos, [tick-tack] dentro de nós o pulsar para nos lembrar. [tick] 7 horas, levantar.Olho ao espelho. Escovar os dentes, lavar o rosto. Tenho 30 minutos para sair de casa. [tick-tack] Quantas vezes inspiro e expiro em 30 minutos? [Tick-tack] Inspiro-expiro num movimento bipolar, para fora [tick] - para dentro [tack]. O coração a pulsar.

Uma competição bestial e diária, cada gesto em sintonia, numa sinfonia pendular. Hoje venci. Talvez tenha inspirado com mais força e expirado menos vezes. Um dia, se parar de respirar talvez vença o tempo.

Tenho 5 minutos de avanço 7:25 [tick]

IC 19 - 7:45 [tack] Os 5 minutos de avanço rapidamente foram devorados. Estes minutos na estrada, cinzentos. [tick] Aquele desespero de ver o tempo lá à frente a quilómetros de distância, e uma multidão parada, que paradoxalmente se move sem sair do mesmo sitio…parada. [tick-tack] O caos a caminhar para um amanhã exactamente igual à de hoje, de horas gastas, no mesmo sítio, talvez mais cinzento.

Chego ao trabalho. 8:10 [tick] Sou uma espécie de roda dentada, que encaixa na perfeição numa outra e por sua vez numa outra. Um mecanismo que começa lentamente a girar [tick-tack] e outro pêndulo começa a andar. Nesta cinética laboral passamos a maior parte das horas todas que levamos a pestanejar.

17:00 [tick-tack] Estou cansado, apetecia-me fechar os olhos. [tick] Fila para picar o ponto.

[tack] Fila para voltar para casa. Tanta gente. Renques de gente todos os dias no mesmo caminho, [tick-tack] a impedirem o caminho uns dos outros. Estradas estranguladas de gente. Pouca terra. Pouca terra… Tenho esta imagem repetida vezes sem conta nesta caderneta da vida. Posso trocar? O céu devia estar mais perto. É preciso muito ar para este amontoado de gente: “massa” humana.
17:45 [tick] Com um pouco de sorte arranjo lugar à porta de casa e assim agora [tick-tack] deixa de ser igual ao agora de ontem, mas não muito diferente dos outros dias.

18:00 [tack] Ando no sentido inverso aos ponteiros do relógio, num carrossel alegórico que me deixa tonto. Depois disto já terei fumado talvez 5 cigarros. Tenho que sentir que
devoro qualquer coisa mais depressa que o tempo. Sem a minha ajuda estes cigarros não queimavam tão depressa. Para além disso estou deprimido. Vou comprar mais um maço.[Tick-tack] 18:15 O elevador continua avariado, não me lembro há quanto tempo. Confundo os dias, para além disso pensar no passado faz-me perder tempo.

[Tick] A tecnologia permite-nos uma maravilhosa ilusão. Posso gravar as noticias das 13:00 e vê-las às 18:30. “Veja agora o que não teve tempo de ver antes”. [tick-tack] Estou sentado na poltrona 18:40 [tack] a ver o noticiário das 13:00 Não tenho tempo e estou demasiado cansado. A diversidade das comidas já prontas chega-me. 3 minutos no microondas. Quantas vezes gira o prato das almôndegas lá dentro? Ao fim de 2 minutos já se ouvem estalidos.

Tick-tack] Ainda tenho tempo para queimar mais alguns cigarros enquanto vejo o jornal da noite, que é o mesmo de ontem, com mais alguns mortos, mais alguns feridos, mais umas discussões no parlamento. De resto, tudo mudou para ficar na mesma. Dão subida de temperatura para amanhã e mais 15 minutos de publicidade. Talvez anunciem um novo prato de comida pronta.

[Tick-tack] Não gosto de novelas, nem costumo ver, mas sempre quis ir à índia, até porque nunca estamos bem onde estamos, e assim viaja-se na poltrona e mete-se a par umas cusquices. Agora vejo esta, mas mais nenhuma.
[Tack] Deitar, parar de pestanejar. O pêndulo sem parar. Sinto-me cansado destas horas gastas.

Somos devorados pelo tempo.
7:00 [tick]
14:00 [tack]
[Tick-tack] Aqui, agora!... Espaço ao cubo. O tempo a passar, um tempo a viver.
[Tick-tack]…


José d’ Almeida & Maria Flores

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De 3 de Junho a 3 de Julho, o Espaço3 (espaço ao cubo) recebe a obra “Kronos devora os seus filhos” dos artistas José d’Almeida e Maria Flores. Esta instalação com projecção vídeo, patente no Alegro Alfragide, faz-nos reflectir sobre o que fazemos com o nosso tempo.

“Kronos devora os seus filhos” ilustra o dia-a-dia frenético, o passar do tempo, as estradas estranguladas de carros, o cansaço, pessoas amontoadas em transportes furiosas pela demora, o amontoado de pessoas, os ponteiros do relógio que incentivam a nossa inércia e quase matam a nossa vontade com dias uns iguais aos outros.

O título da exposição remete-nos para a história de uma personagem da mitologia grega, Cronos, que teve seis filhos com a sua irmã Réia.
Com medo de ser destronado, Cronos engolia os filhos ao nascerem, tendo sido Zeus o único que se salvou.
E é realmente verdade. Se não paramos um pouco somos inexoravelmente tragados pelo voraz Tempo que comanda a nossa vida. Logo a reflexão impõe-se, até porque o nosso Tempo é curto e muito há para descobrir na Vida que esse tempo pretende arrancar-nos.

A obra é da autoria de José D’ Almeida e Maria Flores ambos com currículo e reconhecimento criativo no universo das artes, nomeadamente na vertente da fotografia.
Ela por talento e formação académica e ele por vocação na área das artes gráficas e pela devoção pela expressão plástica.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

835 - Porque me apetece e... porque sim!



Homens que são como lugares mal situados

Homens que são como lugares mal situados
Homens que são como casas saqueadas
Que são como sítios fora dos mapas
Como pedras fora do chão
Como crianças órfãs
Homens sem fuso horário
Homens agitados sem bússola onde repousem

Homens que são como fronteiras invadidas
Que são como caminhos barricados
Homens que querem passar pelos atalhos sufocados
Homens sulfatados por todos os destinos
Desempregados das suas vidas

Homens que são como a negação das estratégias
Que são como os esconderijos dos contrabandistas
Homens encarcerados abrindo-se com facas

Homens que são como danos irreparáveis
Homens que são sobreviventes vivos
Homens que são sítios desviados
Do lugar


daniel faria
in poesia
quasi

domingo, 7 de junho de 2009

831 - Pudesse todo o homem compreender



Super-Homem, a Canção



Um dia vivi a ilusão de que ser homem bastaria
Que o mundo masculino tudo me daria
Do que eu quisesse ter

Que nada, minha porção mulher que até então se resguardara
É a porção melhor que trago em mim agora
É o que me faz viver

Quem dera pudesse todo homem compreender, ó mãe, quem dera
Ser o verão no apogeu da primavera
E só por ela ser

Quem sabe o super-homem venha nos restituir a glória
Mudando como um Deus o curso da história
Por causa da mulher

Quem sabe o super-homem venha nos restituir a glória
Mudando como um deus o curso da história
Por causa da mulher

Gilberto Gil

sexta-feira, 5 de junho de 2009

829 - Partimos com um sonho




Pontual como um relógio a Luísa apareceu, como todas as 5ª feiras, lá na sala de professores para beber um cafézinho e trocar dois dedos de conversa antes de ir ensinar alguém que tenha o privilégio de a ter pela frente.

(Ah o mistério do saber: Se tu soubesses quem tens pela frente... )

Trocámos umas palavras sobre o prazer de estar reformado e ter tempo para tudo (e não ter tempo para nada!) e já não sei como, a conversa veio parar aqui. Tínhamos quase a certeza que ele não poderia ter dito que chegávamos...

Ficámos de ir procurar...

Claro! Ambos tínhamos a certeza. Sim, não importa chegar, o que importa é partir

(Obrigado Luísa por seres quem és! e que pena ser feriado na próxima 5ª)

O SONHO

Pelo Sonho é que vamos,
comovidos e mudos.
Chegamos? Não chegamos?
Haja ou não haja frutos,
pelo sonho é que vamos.

Basta a fé no que temos,
Basta a esperança naquilo
que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
com a mesma alegria,
ao que desconhecemos
e do que é do dia-a-dia.

Chegamos? Não chegamos?

- Partimos. Vamos. Somos.

Sebastião da Gama

quinta-feira, 4 de junho de 2009

828 - Celebrou o terceiro aniversário


Nem dei por isso... Sabia que era um destes dias...

Afinal no passado dia 2 este blogue fez 3 anos! Já passou por muitas fases e tem sido um fiel amigo e companheiro!

É, para o bem e para o mal, a cara do seu autor

Não andando numa onda de auto-crítica nem de nostalgia, celebro a data com a cópia do 1º Post!

(Sim, mantenho-me fiel a mim próprio e o blogue sofre com isso)

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Que grande responsabilidade... o primeiro post e o primeiro poema...
Escolhi este, sem pensar muito.... E o engraçado é que nem é um poema, ou pelo menos não tem a métrica, nem a rima... Fica como homenagem.


Se não podes ser uma árvore sobre a colina,
que sejas um arbusto no vale.
Mas que sejas o melhor arbusto de todas as léguas ao seu redor.
Se não podes ser como uma estrada, sejas uma vereda.
Se não podes ser o sol, sejas uma estrela.
O valor não se mede pelas dimensões.
Sejas o que fores...
que o sejas profundamente...

(Martin Luther King)

826 - Miguel Horta


Hoje assisti a uma sessão com o autor e ilustrador Miguel Horta. Os destinatários foram alunos do 6º e 7º ano.
Confesso que me entusiasmei pela comunicação que se estabeleceu e por ter visto, pela primeira vez, alguém reflectir com miúdos as três formas distintas de trabalhar com livros: Lê-los, ouvi-los e escrevê-los. Cada uma destas dimensões é, de facto, diferente e complementar.
O Miguel leu-lhes alguns poemas (uns dele outros não) mas o curioso foi perceber que os poemas dele foram escritos para serem ditos (ou foram ditos e só depois escritos) dado que a musicalidade e fonética era trabalhada e funcionava. Isso não acontece em muitos poemas escritos que ao serem ditos perdem alguma da beleza por não terem uma métrica e estrutura adequada... (isto a musicalidade do poema fazem muito bem os rapers). A leitura expressiva cativou os miudos e não deixou de ter sentido ouvir Luís de Camões ou António Gedeão numa versão hip-hop.

Poema colectivo de feito na aula de português por alunos do 6ª ano a partir da sinopse do livro de Miguel Horta

Na ilha de Tamarindo
Vivia um rapaz
Contava tudo mentira
Que é coisa que não se faz.

Um dia conheceu uma baleia
De seu nome baleote
Apesar de "más sementes"
Era um rapaz com sorte.

Mas ser mentiroso
Não é coisa que se faça.
Isso ficou provado
Quando baleote o avisou da desgraça.

Tentou avisar os seus
Mas ninguém acreditou.
O que ele tinha semeado
Para ele voltou.

Da segunda, pensou ele
Que nele iriam acreditar.
Mas a semente estava funda
E voltaram a duvidar.

Foi avisado de uma erupção vulcânica
E o pai dele acreditou.
Contou aos amigos
E assim a ilha se salvou.

Mas há sempre uma volta
Na hora de provar valores.
Era a hora do rapaz salvar baleias
Salvá-las dos caçadores.

E tentaram esclarecê-los
Mas isso não resultou.
Tiveram de levá-los para as rochas
Onde o barco deles se afundou.

E a natureza ao acertar as contas
Iam ser mortos pelo tubarão.
Mas foram salvos belas baleias
Que mostraram o seu grande coração.

E na ilha da baleia
Ficou um pacto no mar.
Está escrito para quem leia
"aqui é proibido caçar".

A turma do 6º...

segunda-feira, 1 de junho de 2009

825 - Me gustas
























EL DESAYUNO

Me gustas cuando dices tonterías,
cuando metes la pata, cuando mientes,
cuando te vas de compras con tu madre
y llego tarde al cine por tu culpa.
Me gustas más cuando es mi cumpleaños
y me cubres de besos y de tartas,
o cuando eres feliz y se te nota,
o cuando eres genial con una frase
que lo resume todo, o cuando ríes
(tu risa es una ducha en el infierno),
o cuando me perdonas un olvido.
Pero aún me gustas más, tanto que casi
no puedo resistir lo que me gustas,
cuando, llena de vida, te despiertas
y lo primero que haces es decirme:
"Tengo un hambre feroz esta mañana.
Voy a empezar contigo el desayuno".

Pablo Neruda

824 - E se fosse?

Contexto (improvável)

De volta de um compromisso profissional (e pessoal) quatro pessoas viajam num carro. Ao fim da tarde, à escuta de notícias da manisfestação dos professores ouvem na rádio, por um acaso do destino, a música abaixo.

Pára a conversa e todos a cantam à sua maneira!


Acabou por fazer todo o sentido, pois quadra a quadra, palavra a palavra, tudo era real!


(Se calhar até pode ser! e tudo poderá ser melhor - basta querer!)



A principio é simples, anda-se sozinho
passa-se nas ruas bem devagarinho
está-se bem no silêncio e no borborinho
bebe-se as certezas num copo de vinho
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Pouco a pouco o passo faz-se vagabundo
dá-se a volta ao medo, dá-se a volta ao mundo
diz-se do passado, que está moribundo
bebe-se o alento num copo sem fundo
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

E é então que amigos nos oferecem leito
entra-se cansado e sai-se refeito
luta-se por tudo o que se leva a peito
bebe-se, come-se e alguém nos diz: bom proveito
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Depois vêm cansaços e o corpo fraqueja
olha-se para dentro e já pouco sobeja
pede-se o descanso, por curto que seja
apagam-se dúvidas num mar de cerveja
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Enfim duma escolha faz-se um desafio
enfrenta-se a vida de fio a pavio
navega-se sem mar, sem vela ou navio
bebe-se a coragem até dum copo vazio
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

E entretanto o tempo fez cinza da brasa
e outra maré cheia virá da maré vaza
nasce um novo dia e no braço outra asa
brinda-se aos amores com o vinho da casa
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida.

Sérgio Godinho