sexta-feira, 30 de novembro de 2007

286 - o que eu vou dizer...

















Amor Amigo

O que eu vou dizer, você nunca ouviu de mim
Pois minha timidez não me deixou falar por muito tempo
Para mim você é a luz que revela os poemas que fiz
Quem conhece da terra e do sol
Muito sabe os mistérios do mar

O que eu vou dizer, você nunca ouviu de mim
Pois quieto que sou só sabia sangrar, sangrar cantando
Quantas vezes eu quis me abrir
e beijar e abraçar com paixão, mas as palavras
que devia usar fugiam de mim recolhidas na minha prisão

(Mas) O que eu vou dizer, você nunca ouviu de mim
Pois minha solidão foi não falar, mostrar vivendo.
Quantas vezes eu quis me abrir
e as portas do meu coração sempre pediam
Seu amor é meu sol e sem ele eu não saberia viver


Milton Nascimento

terça-feira, 27 de novembro de 2007

285 - A um mês do Natal















Canção do Sal


Trabalhando o sal é amor é o suor que me sai
Vou viver cantando o dia tão quente que faz
Homem ver criança buscando conchinhas no mar
Trabalho o dia inteiro pra vida de gente levar

Água vira sal lá na salina
Quem diminuiu água do mar
Água enfrenta sol lá na salina
Sol que vai queimando até queimar

Trabalhando o sal pra ver a mulher se vestir
E ao chegar em casa encontrar a família sorrir
Filho vir da escola problema maior é o de estudar
Que é pra não ter meu trabalho e vida de gente levar

Milton Nascimento

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

284 - Definição de saudade II















Saudades

Saudades! Sim... talvez... e porque não?...
Se o nosso sonho foi tão alto e forte
Que bem pensara vê-lo até à morte
Deslumbrar-me de luz o coração!

Esquecer! Para quê?... Ah! como é vão!
Que tudo isso, Amor, nos não importe.
Se ele deixou beleza que conforte
Deve-nos ser sagrado como pão!

Quantas vezes, Amor, já te esqueci,
Para mais doidamente me lembrar,
Mais doidamente me lembrar de ti!

E quem dera que fosse sempre assim:
Quanto menos quisesse recordar
Mais a saudade andasse presa a mim!

Florbela Espanca

domingo, 25 de novembro de 2007

283 - A um mês do Natal


















A um mês de Natal faz sentido reler o sentido da Festa


Citando Isaias 11

1Do cepo de Jessé brotará um rebento, e das suas raízes frutificará um ramo. [...] Não julgará segundo as aparências, nem por ouvir dizer.
4Castigará a terra com a vara da sua palavra, e com o sopro da sua boca condenará à morte a gente má. Pelo contrário, defenderá com justiça os pobres e com equidade os explorados.
5Porque se revestirá de justiça e de verdade na cintura e no tronco.
6Nesse dia o lobo e o cordeiro deitar-se-ão juntos, o leopardo e o cabrito viverão em paz; bezerros e gordas ovelhas estarão em segurança no meio de leões, e uma criança os guiará.
7Os bois pastarão juntamente com os ursos, enquanto os respectivos filhotes ficarão deitados uns com os outros. Também o leão comerá erva como os bois.
8Haverá bebés gatinhando sem perigo por entre serpentes venenosas, e crianças que põem despreocupadamente a mão dentro dum ninho de víboras, retirando-a depois sem a mínima mordedura."



Sem perder a esperança nesse dia penso que me contentaria com a concretização do texto de D. Helder da Camâra

Mariama, Nossa Senhora, mãe de Cristo e Mãe dos homens!

Mariama, Mãe dos homens de todas as raças, de todas as cores, de todos os cantos da Terra.

Pede ao teu filho que esta festa não termine aqui, a marcha final vai ser linda de viver.

Mas é importante, Mariama, que a Igreja de teu Filho não fique em palavra, não fique em aplauso.

Não basta pedir perdão pelos erros de ontem. É preciso acertar o passo de hoje sem ligar ao que disserem.

Claro que dirão, Mariama, que é política, que é subversão. É Evangelho de Cristo, Mariama.

Claro que seremos intolerados.

Mariama, Mãe querida, problema de negro acaba se ligando com todos os grande problemas humanos.

Com todos os absurdos contra a humanidade, com todas as injustiças e opressões.

Mariama, que se acabe, mas se acabe mesmo a maldita fabricação de armas. O mundo precisa fabricar é Paz. Basta de injustiça!

Basta de uns sem saber o que fazer com tanta terra e milhões sem um palmo de terra onde morar.

Basta de alguns tendo que vomitar para comer mais e 50 milhões morrendo de fome num só ano.

Basta de uns com empresas se derramando pelo mundo todo e milhões sem um canto onde ganhar o pão de cada dia.

Mariama, Senhora Nossa, Mãe querida, nem precisa ir tão longe, como no teu hino. Nem precisa que os ricos saiam de mãos vazias e o pobres de mãos cheias. Nem pobre nem rico.

Nada de escravo de hoje ser senhor de escravo de amanhã. Basta de escravos. Um mundo sem senhor e sem escravos. Um mundo de irmãos.

De irmãos não só de nome e de mentira. De irmãos de verdade, Mariama.

D. Hélder Câmara

Extraído do texto da Missa dos Quilombos

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

282 - definição de saudade

Não raras vezes, quando falo com gente de outras nacionalidades, o tema repete-se: "o que é a saudade?" perguntam-me...
Claro que gosto de falar sobre o assunto e sobre esta palavra/sentimento tão nossa, mas, aos poucos percebo que lhes podereia devolver a questão perguntando: "O que é o amor?"
Tento a comparação, Ah "wind" está para "missing" assim como "hurricane" está para "saudade". É forte, é pensamento, envolve-nos, limita-nos, tolhe-nos os movimentos, o corpo e a alma, e...


Pedaço de Mim
Chico Buarque

Oh, pedaço de mim
Oh, metade afastada de mim
Leva o teu olhar
Que a saudade é o pior tormento
É pior do que o esquecimento
É pior do que se entrevar

Oh, pedaço de mim
Oh, metade exilada de mim
Leva os teus sinais
Que a saudade dói como um barco
Que aos poucos descreve um arco
E evita atracar no cais

Oh, pedaço de mim
Oh, metade arrancada de mim
Leva o vulto teu
Que a saudade é o revés de um parto
A saudade é arrumar o quarto
Do filho que já morreu

Oh, pedaço de mim
Oh, metade amputada de mim
Leva o que há de ti
Que a saudade dói latejada
É assim como uma fisgada
No membro que já perdi

Oh, pedaço de mim
Oh, metade adorada de mim
Lava os olhos meus
Que a saudade é o pior castigo
E eu não quero levar comigo
A mortalha do amor
Adeus

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

281 - O teu sorriso



















Tira-me o pão,
se quiseres,tira-me o ar, mas não
me tires o teu riso.

Não me tires a rosa,
a lança que desfolhas,
a água que de súbito
brota da tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce.

A minha luta é dura e regresso
com os olhos cansados
às vezes por verque a terra não muda,
mas ao entrar teu riso
sobe ao céu a procurar-me
e abre-me todas as portas da vida.

Meu amor, nos momentos
mais escuros solta
o teu riso e se de súbito
vires que o meu sangue mancha
as pedras da rua,
ri, porque o teu riso
será para as minhas mãos
como uma espada fresca.

À beira do mar, no outono,
teu riso deve erguer
sua cascata de espuma,
e na primavera, amor,
quero teu riso como
a flor que esperava,
a flor azul, a rosa
da minha pátria sonora.

Ri-te da noite,do dia, da lua,
ri-te das ruas tortas da ilha,
ri-te deste grosseiro rapaz que te ama,
mas quando abro os olhos e os fecho,
quando meus passos vão,
quando voltam meus passos,
nega-me o pão, o ar,a luz, a primavera,
mas nunca o teu riso,
porque então morreria.

O Teu Riso (Pablo Neruda)

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

280 - retrato dos tempos que correm



















Poema pouco original do medo

O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis
Vai ter olhos onde ninguém o veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no teto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos

O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
óptimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projectos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
(assim assim)
escriturários
(muitos)
intelectuais
(o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com certeza a deles

Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados

Ah o medo vai ter tudo
tudo
(penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)

O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos

Sim
ratos

Alexandre O'Neil

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

279 - canta-nos uma canção :-)








a la puerta de mi amor
hay un lazo de algodón
todos passan y no se quedan
solo yo me quedo en prisón

tu que durmes en la ribera
acaso me podrás decir
cuantas horas duerme el água
antes de amanecer

tenho no quintal um limoeiro
junto ao canteiro da hortelã
ele dá limões o ano inteiro
eu em troca rego toda as manhãs

eu em troca rego todas as manhãs
isto é se não chover primeiro
junto ao canteiro da hortelã
tenho no quintal um limoeiro

la nostalgia hace sufrir
aún así la quiero bien
una nostalgia en la vida
pobre de quine no la quiere.

"o limoeiro" in "terra de abrigo"

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

278 - foi lindo de facto...















Oh Danny Boy, the pipes, the pipes are calling
From glen to glen, and down the mountainside.
The summer's gone, and all the roses falling
'Tis you, 'tis you must go and I must bide.
But come ye back when summer's in the meadow
Or when the valley's hushed and white with snow,
For I'll be here in sunshine or in shadow.
Oh Danny Boy, oh Danny Boy, I love you so.
And when ye come, and all the flowers are dying,
If I am dead, as dead I well may be,
Ye'll come and find the place where I am lying
And kneel and say an Ave there for me.
And I shall hear, though soft you tread above me,
And o'er my grave shall warmer, sweeter be,
And if you bend and tell me that you love me,
Then I shall sleep in peace until you come to me.


From Wikipedia, the free encyclopedia

Song
Published 1913
Genre Ballad, Irish folk
Writer Frederick Weatherly (Lyrics)
For the Scottish comedian, see Danny Bhoy.
For the House of Pain MC, see Danny Boy (singer).
For the Chicago-born African-American soul singer, see Danny Boy (artist).
"Danny Boy" is a song , whose lyrics are set to the Irish tune Londonderry Air. The lyrics were originally written for a different tune in 1910 by Frederick Weatherly, an English lawyer who never actually visited Ireland, and modified to fit Londonderry Air in 1913. The first recording was made by Ernestine Schumann-Heink in 1915. Weatherly gave the song to Elsie Griffin, who made it one of the most popular in the new century. Weatherly later suggested in 1928 that the second verse would provide a fitting requiem for the actress Ellen Terry.

The song is widely considered an Irish anthem, and the tune is used as the anthem of Northern Ireland at the Commonwealth Games, even though the song's writer was not Irish, and the song was and is more popular outside Ireland than within. It is nonetheless widely considered by Irish Canadians/Americans to be their unofficial signature tune. It is frequently included in the organ presentation at Irish-American funerals.

Though the song is supposed to be a message from a woman to a man (Weatherly provided the alternative "Eily dear" for male singers in his 1918 authorized lyrics [1]), the song is actually sung by men as much as, or possibly more often than, by women. The song has been interpreted by some listeners as a message from a parent to a son going off to war or leaving as part of the Irish diaspora.

domingo, 11 de novembro de 2007

277 - Mar sem fim















Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim.
A tua beleza aumenta quando estamos sós
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho.
Que momentos há em que suponho
Seres um milagre criado só para mim.

Sophia de Mello Breyner Andresen - Mar Sonoro

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

276 - Meu pensamento


















Meu pensamento
partiu no vento
podem prendê-lo
matá-lo não

Meu pensamento
quebrou amarras
partiu no vento
deixou guitarras

Meu pensamento
por onde passas
estátua de vento
em cada praça

Foi à onquista
de um novo mundo
foi vagabundo
contrbandista

foi marinheiro
maltês ganhão
foi prisioneiro
mas servo não

E os reis mandaram
fazer muralhas
tecer as malhas
de negras leis

homens morreram
chamas ao vento
por ti morreram
meu pensamento