sexta-feira, 30 de março de 2007

177 - Escolhas



















Ou isto ou aquilo

Ou se tem chuva e não se tem Sol
ou se tem Sol e não se tem chuva!

Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se pões o anel e não se calça a luva!

Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.

É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo nos dois lugares!

Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e não gasto o dinheiro.

Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo…
e vivo escolhendo o dia inteiro!

Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fique tranquilo.

Mas não consegui entender ainda
que é melhor: se isto ou aquilo.


Cecília Meireles, 1990

quarta-feira, 28 de março de 2007

176 - Senhora das tempestades
















Senhora das tempestades e dos mistérios originais
quando tu chegas a terra treme do lado esquerdo
trazes o terremoto a assombração as conjunções fatais
e as vozes negras da noite Senhora do meu espanto e do meu medo.

Senhora das marés vivas e das praias batidas pelo vento
há uma lua do avesso quando chegas
crepúsculos carregados de presságios e o lamento
dos que morrem nos naufrágios Senhora das vozes negras.

Senhora do vento norte com teu manto de sal e espuma
nasce uma estrela cadente de chegares
e há um poema escrito em páginas nenhuma
quando caminhas sobre as águas Senhora dos sete mares.

Conjugação de fogo e luz e no entanto eclipse
trazes a linha magnética da minha vida Senhora da minha morte
teu nome escreve-se na areia e é uma palavra que só Deus disse
quando tu chegas começa a música Senhora do vento norte.

Escreverei para ti o poema mais triste
Senhora dos cabelos de alga onde se escondem as divindades
quando me tocas há um país que não existe
e um anjo poisa-me nos ombros Senhora das Tempestades.

Senhora do sol do sul com que me cegas
a terra toda treme nos meus músculos
consonância dissonância Senhora das vozes negras
coroada de todos os crepúsculos.

Senhora da vida que passa e do sentido trágico
do rio das vogais Senhora da litúrgica
sibilação das consoantes com seu absurdo mágico
de que não fica senão a breve música.

Senhora do poema e da oculta fórmula da escrita
alquimia de sons Senhora do vento norte
que trazes a palavra nunca dita
Senhora da minha vida Senhora da minha morte.

Senhora dos pés de cabra e dos parágrafos proibidos
que te disfarças de metáfora e de soprar marítimo
Senhora que me dóis em todos os sentidos
como um ritmo só ritmo como um ritmo.

Batem as sílabas da noite na oclusão das coronárias
Senhora da circulação que mata e ressuscita
trazes o mar a chuva as procelárias
batem as sílabas da noite e és tu a voz que dita.

Batem os sons os signos os sinais
trazes a festa e a despedida Senhora dos instantes
fica o sentido trágico do rio das vogais
o mágico passar das consoantes.

Senhora nua deitada sobre o branco
com tua rosa dos ventos e teu cruzeiro do sul
nascem faunos com tridentes no teu flanco
Senhora de branco deitada no azul.

Senhora das águas transbordantes no cais de súbito vazio
Senhora dos navegantes com teu astrolábio e tua errância
teu rosto de sereia à proa de um navio
tudo em ti é partida tudo em ti é distância.

Senhora da hora solitária do entardecer
ninguém sabe se chegas como graça ou como estigma
onde tu moras começa o acontecer
tudo em ti é surpresa Senhora do grande enigma.

Tudo em ti é perder Senhora quantas vezes
Setembro te levou para as metrópoles excessivas
batem as sílabas do tempo no rolar dos meses
tudo em ti é retorno Senhora das marés vivas.

Senhora do vento com teu cavalo cor de acaso
tua ternura e teu chicote sobre a tristeza e a agonia
galopas no meu sangue com teu catéter chamado Pégaso
e vais de vaso em vaso Senhora da arritmia.

Tudo em ti é magia e tensão extrema
Senhora dos teoremas e dos relâmpagos marinhos
batem as sílabas da noite no coração do poema
Senhora das tempestades e dos líquidos caminhos.

Tudo em ti é milagre Senhora da energia
quando tu chegas a terra treme e dançam as divindades
batem as sílabas da noite e tudo é uma alquimia
ao som do nome que só Deus sabe Senhora das tempestades.

terça-feira, 27 de março de 2007

175 - Que é depois da vida que a gente encontra a paz prometida















Mudemos de Assunto

Andas aí a partir corações
como quem parte um baralho de cartas
cartas de amorescrevi-te eu tantas
às tantas, aos poucos
às tantas, aos poucos eu fui percebendo
às tantas eu lá fui tacteando
às cegas eu lá fui conseguindo
às cegas eu lá fui abrindo os olhos

E nos teus olhos como espelhos partidos
quis inventar uma outra narrativa
até que um dia ai me chegou aos ouvidos
e era só eu a vogar à deriva
e um animal sempre foge do fogo
e eu mal gritei: fogo!
mal eu gritei: água!
que morro de sede
achei-me encostado à parede
gritando: Livrai-me da sede!
e o mar inteiro entrou na minha casa

E nos teus olhos inundados do mar
eu naveguei contra minha vontade
mas deixa lá, que este barco a viajar
há-de chegar à gare da sua cidade
e ao desembarque a terra será mais firme
há quem afirme
há quem assegure
que é depois da vida
que a gente encontra a paz prometida
por mim marquei-lhe encontro na vida
marquei-lhe encontro ao fim da tempestade

Da tempestade,o que se teve em comum
é aquilo que nos separa depois
e os barcos passam a ser um e um
onde uma vez quiseram quase ser dois
e a tempestade deixa o mar encrespado
por isso cuidado
mesmo muito cuidado
que é fragil o pano
que veste as velas do desengano
que nos empurra em novo oceano
frágil e resistente ao mesmo tempo

Mas isto é um canto
e não um lamento
já disse o que sinto
agora façamos o ponto
e mudemos de assunto
sim?

segunda-feira, 26 de março de 2007

174 - Parabéns Teresa Marques
















Redacção sobre a Primavera
Teresa Marques


Eu gosto da Primavera.
Gosto do gosto a flores que tem por dentro. Sempre gostei.

Quando recebemos os alunos pela primeira vez é assim uma espécie de Inverno escuro, um desconhecido à espeas cores de que se faz a luz de cada um de nós. Quanto mais nos entrelaçamos, mais botões prometidos se abrem, mais aromas se distinguem, mais percebemos os cuidados a ter com cada um.

Eles depressa ficam a saber ra de se iluminar. À medida que o ano avança, a transparência aumenta e é bom ir descobrindo que fruto oferece cada professor, nós demoramos mais tempo a entender o sabor que tem cada aluno.

Nunca gostei muito de multidões. Gosto de conhecer rostos, nomes. Adivinhar olhos. Gosto de saber que borboleta sigo, que flor cheiro. Gosto de um ensino artesanal. A Primavera faz sentido tocada, percebida, sentida, conhecida. É na essência desse mútuo cativar que todas as flores desejam abrir-se ao novo e experimentar voar.
Mas a escola é campo a querer dispersar-se. A querer deixar-se caminhar sem tempo para ver, escutar, cheirar a rosa.

Acrescentam-se muitos nomes temporários à lista habitual dos seres que nos são confiados (quantas vezes já longa) e espera-se o milagre. Um qualquer. Acredita-se que bom. Mas essa crença sem sentido só revela o desconhecimento profundo da essência deste fértil terreno. É crença de quem ignora o pulsar da escola. E crença assim nada planta. É semente morta.

Cuidar de muitas flores alheias rouba algo ao jardim que é o nosso. Há um limite para a água que sai de nós, para o alimento paciente que partilhamos e podemos receber em troca. A escola não é indústria, máquina acelerada, baixo custo, padrão repetido, cadeia de montagem, produção sem fim, números sem rosto. Ela é agricultura biológica, campo de sementes onde o tempo tem de ter o seu tempo, cada fruto seu tamanho e seu nome, onde a mão toca e sente, os olhos se cruzam, o risco se arrisca, a paciência é virtude e conhecer, plantar, saber, esperar, colher, amar, cuidar, está no centro, na margem, no fim de cada gesto preciso e lento, que acompanha o ritmo das estações sem estufas enganando a vida.
Eu gosto da Primavera. Sempre gostei.

Porque lembra o Amor em gestação que me/nos colocou neste caminho. Amor que se renova em cada ano, que constrói, que acolhe, que floresce.

Não quero acreditar que a escola passe a viver de Inverno em Inverno, cheia de pressa, sem florescer a meio. Não quero.

Não quero ter saudades da Primavera e depois não a ver chegar.

Parabéns Teresa Marques

sábado, 24 de março de 2007

173 - eu já tenho mais de 12 à mesa



















na hora de pôr a mesa, éramos cinco:
o meu pai, a minha mãe,as minhas irmãs e eu.
depois, a minha irmã mais velha casou-se.
depois, a minha irmã mais nova casou-se.
depois, o meu pai morreu.
hoje, na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está na casa dela,
menos a minha irmã mais nova que está na casa dela,
menos o meu pai, menos a minha mãe viuva.
cada um deles é um lugar vazio
nesta mesa onde como sozinho.
mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo,
seremos sempre cinco.

(imagem Picasso)

sexta-feira, 23 de março de 2007

172 - Arte Poética










o poema não tem mais que o som do seu sentido,
a letra p não é a primeira letra da palavra poema,
o poema é esculpido de sentidos e essa é a sua forma,
poema não se lê poema, lê-se pão ou flor, lê-se erva
fresca e os teus lábios, lê-se sorriso estendido em mil
árvores ou céu de punhais, ameaça, lê-se medo e procura
de cegos, lê-se mão de criança ou tu, mãe, que dormes
e me fizeste nascer de ti para ser palavras que não
se escrevem, lê-se país e mar e céu esquecido e
memória, lê-se silêncio, sim, tantas vezes, poema lê-se silêncio,
lugar que não se diz e que significa, silêncio do teu
olhar de doce menina, silêncio ao domingo entre as conversas,
silêncio depois de um beijo ou de uma flor desmedida, silêncio
de ti, pai, que morreste em tudo para só existires nesse poema
calado, quem o pode negar?, que escreves sempre e sempre, em
segredo, dentro de mim e dentro de todos os que te sofrem.
o poema não é esta caneta de tinta preta, não é esta voz,
a letra p não é a primeira letra da palavra poema,
o poema é quando eu podia dormir até tarde nas férias
do verão e o sol entrava pela janela, o poema é onde eu
fui feliz e onde eu morri tanto, o poema é quando eu não
conhecia a palavra poema, quando eu não conhecia a
letra p e comia torradas feitas no lume da cozinha do
quintal, o poema é aqui, quando levanto o olhar do papel
e deixo as minhas mãos tocarem-te, quando sei, sem rimas
e sem metáforas, que te amo, o poema será quando as crianças
e os pássaros se rebelarem e, até lá, irá sendo sempre e tudo.
o poema sabe, o poema conhece-se e, a si próprio, nunca se chama
poema, a si próprio, nunca se escreve com p, o poema dentro de
si é perfume e é fumo, é um menino que corre num pomar para
abraçar o seu pai, é a exaustão e a liberdade sentida, é tudo
o que quero aprender se o que quero aprender é tudo,
é o teu olhar e o que imagino dele, é solidão e arrependimento,
não são bibliotecas a arder de versos contados porque isso são
bibliotecas a arder de versos contados e não é o poema, não é a
raiz de uma palavra que julgamos conhecer porque só podemos
conhecer o que possuímos e não possuímos nada, não é um
torrão de terra a cantar hinos e a estender muralhas entre
os versos e o mundo, o poema não é a palavra poema
porque a palavra poema é uma palavra, o poema é a
carne salgada por dentro, é um olhar perdido na noite sobre
os telhados na hora em que todos dormem, é a última
lembrança de um afogado, é um pesadelo, uma angústia, esperança.
o poema não tem estrofes, tem corpo, o poema não tem versos,
tem sangue, o poema não se escreve com letras, escreve-se
com grãos de areia e beijos, pétalas e momentos, gritos e
incertezas, a letra p não é a primeira letra da palavra poema,
a palavra poema existe para não ser escrita como eu existo
para não ser escrito, para não ser entendido, nem sequer por
mim próprio, ainda que o meu sentido esteja em todos os lugares
onde sou, o poema sou eu, as minhas mãos nos teus cabelos,
o poema é o meu rosto, que não vejo, e que existe porque me
olhas, o poema é o teu rosto, eu, eu não sei escrever a
palavra poema, eu, eu só sei escrever o seu sentido.
in A Criança em Ruínas

quinta-feira, 22 de março de 2007

171 - dos meninos da EB 1 da Bouça Cova














O limpa palavra


A palavra fada é mágica.
A palavra pássaro tem asas para voar.
A palavra pensar gosta de divagar.
A palavra escola faz-me estudar.
A palavra casa é quente e tranquila.
A palavra Verão deixa-me bronzeado.
A palavra calor faz-me transpirar.
A palavra quadro dá para escrever.
A palavra neve é fria.
A palavra sentir faz-me bem.
A palavra andar cansa-me.
A palavra sonhar faz-me divagar.
A palavra gaveta arruma tudo.
A palavra Natal é o sonho.
A palavra disparate só diz asneiras.
A palavra criança sabe brincar.
A palavra pular gosta de saltar.
A palavra vaidosa é bonita.
A palavra princesa é de encantar.
A palavra lápis é grande.
A palavra tem tudo.
Turma D – 3º ano
Lustosa - Lousada

terça-feira, 20 de março de 2007

170 - O poeta aprendiz





















O poeta aprendiz


(Obrigado J.M.)

Ele era um menino
Valente e caprino
Um pequeno infante
Sadio e grimpante
Anos tinha dez
E asas nos pés
Com chumbo e bodoque
Era plic e ploc
O olhar verde-gaio
Parecia um raio
Para tangerina
Pião ou menina
Seu corpo moreno
Vivia correndo
Pulava no escuro
Não importa que muro
Saltava de anjo
Melhor que marmanjo
E dava o mergulho
Sem fazer barulho
Em bola de meia
Jogando de meia-direita ou de ponta
Passava da conta
De tanto driblar



Amava era amar
Amava Leonor
Menina de cor
Amava as criadas
Varrendo as escadas
Amava as gurias
Da rua, vadias
Amava suas primas
Com beijos e rimas
Amava suas tias
De peles macias
Amava as artistas
Das cine-revistas
Amava a mulher
A mais não poder
Por isso fazia
Seu grão de poesia
E achava bonita
A palavra escrita
Por isso sofria
De melancolia
Sonhando o poeta
Que quem sabe um dia
Poderia ser

segunda-feira, 19 de março de 2007

sábado, 17 de março de 2007

168 - Toda a mulher faz cinema?















Ela faz cinema
Chico Buarque


Quando ela chora
Não sei se é dos olhos para fora
Não sei do que ri
Eu não sei se ela agora
Está fora de si
Ou se é o estilo de uma grande dama
Quando me encara e desata os cabelos
Não sei se ela está mesmo aqui
Quando se joga na minha cama

Ela faz cinema
Ela faz cinema
Ela é a tal
Sei que ela pode ser mil
Mas não existe outra igual

Quando ela mente
Não sei se ela deveras sente
O que mente para mim
Serei eu meramente
Mais um personagem efêmero
Da sua trama
Quando vestida de preto
Dá-me um beijo seco
Prevejo meu fim
E a cada vez que o perdão
Me clama

Ela faz cinema
Ela faz cinema
Ela é demais
Talvez nem me queira bem
Porém faz um bem que ninguém
Me faz

Eu não sei
Se ela sabe o que fez
Quando fez o meu peito
Cantar outra vez
Quando ela jura
Não sei por que Deus ela jura
Que tem coração
e quando o meu coração
Se inflama

Ela faz cinema
Ela faz cinema
Ela é assim
Nunca será de ninguém
Porém eu não sei viver sem
E fim.

sexta-feira, 16 de março de 2007

167 - Os cariocas são... como eu!












Cariocas
(Adriana Calcanhoto)


Cariocas são bonitos
Cariocas são bacanas
Cariocas são sacanas
Cariocas são dourados
Cariocas são modernos
Cariocas são espertos
Cariocas são diretos
Cariocas não gostam de dias nublados
Cariocas nascem bambas
Cariocas nascem craques
Cariocas têm sotaque
Cariocas são alegres
Cariocas são atentos
Cariocas são tão sexys
Cariocas são tão claros
Cariocas não gostam de sinal fechado ...

quarta-feira, 14 de março de 2007

166 - a voz aos meninos

O vento passou e disse:
- Gosto de ti.
E a nuvem muito sorridente tirou o seu fato cinzento e vestiu um azul para que o céu ficasse radiante.

A nuvem passou por cima de um ribeiro e disse:
- Gosto de ti.
E o ribeiro agradeceu, soltou peixes e as suas águas ficaram lindas correndo pelo leito.

O ribeiro correndo, correndo foi encontrar-se com um rio e disse:
- Gosto de ti .
E o rio agradeceu e disse ao ribeiro que um dia o ribeiro se iria tornar rio.


O rio passou pelo mar e disse:
- Gosto de ti.
E o mar naquele momento fez aparecer as mais lindas ondas e os seus mais bonitos golfinhos e peixes.

Ricardo 1-03-04
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A menina das tranças loiras passou e disse:
- Gosto de ti.
E o meu coração sorriu de alegria.

Uma pomba branca passou e disse:
- Gosto de ti.
E o mundo encheu-se de paz.

A espiga de trigo sorriu e disse:
- Gosto de ti.
E acabou a fome no mundo.

Uma folhinha levada pelo vento passou e disse:
- Gosto de ti.
E o espanta-pardais deixou cair uma lágrima de felicidade.

A estrela cadente passou e disse:
- Gosto de ti.
E os sonhos dos homens tornaram-se realidade.

Fábio 1-03-04

terça-feira, 13 de março de 2007

165 - das coisas simples e belas também é preciso falar















Gosto de ti


O vento passou e disse:
Gosto de ti
E a flor abriu-se em pétalas
de todas as cores.

A onda passou e disse:
Gosto de ti
E na praia a areia
ficou mais lisa.

A noite passou e disse:
Gosto de ti
E as árvores cheias de orvalhos
ficaram mais verdes.

O sol passou e disse:
Gosto de ti
E o trigo muito loiro
acenou com as espigas maduras.

A neve passou e disse:
Gosto de ti
E a terra embrulhou-se
num manto todo branco.

A chuva passou e disse:
Gosto de ti
E o rio cantou mais forte

O amigo passou e disse:
Gosto de ti
E o coração
ficou a dançar de alegria

Leonor Santa Rita

sexta-feira, 9 de março de 2007

164 - Dia da mulher 9 de Março!



















(Pintura: as 3 idades da mulher)
Gustav Klimt, 1905

As canseiras desta vida
tanta mãe envelhecida
a escovar
a escovar
a jaqueta carcomida
fica um farrapo a brilhar

Cozinheira que se esmera
faz a sopa de miséria
a contara contar
os tostões da minha féria
e a panela a protestar

Dás as voltas ao suor
fim do mês é dia 30
e a sexta é depois da quinta
sempre de mal a pior

E cada um se lamenta
que isto assim não pode ser
que esta vida não se aguenta
-o que é que se há-de fazer?

Corta a carne, corta o peixe
não há pão que o preço deixe
a poupar
a poupar
a notinha que se queixa
tão difícil de ganhar

Anda a mãe do passarinho
a acartar o pão pró ninho
a cansar
a cansar
com a lama do caminho
só se sabe lamentar

É mentira, é verdade
vai o tempo, vem a idade
a esticar
a esticar
a ilusão de liberdade
pra morrer sem acordar

É na morte ou é na vida
que está a chave escondida
do portão
do portão
deste beco sem saída
-qual será a solução?

segunda-feira, 5 de março de 2007

163 - Lisboa III

Posted by Picasa
Alguém diz com lentidão:
«Lisboa, sabes...»
Eu sei. É uma rapariga
descalça e leve,
um vento súbito e claro
nos cabelos,
algumas rugas finas
a espreitar-lhe os olhos,
a solidão aberta
nos lábios e nos dedos,
descendo degraus
e degraus
e degraus até ao rio.
Eu sei. E tu, sabias?

Eugénio de Andrade ( Coração do Dia)

sábado, 3 de março de 2007

162 - Lisboa II

Posted by Picasa
Um Homem na Cidade


Agarro a madrugada
como se fosse uma criança,
uma roseira entrelaçada,
uma videira de esperança.
Tal qual o corpo da cidade
que manhã cedo ensaia a dança
de quem, por força da vontade,
de trabalhar nunca se cansa.
Vou pela rua desta lua
que no meu Tejo acendo cedo,
vou por Lisboa, maré nua
que desagua no Rossio.


Eu sou o homem da cidade
que manhã cedo acorda e canta,
e, por amar a liberdade,
com a cidade se levanta.
Vou pela estrada deslumbrada
da lua cheia de Lisboa
até que a lua apaixonada
cresce na vela da canoa.
Sou a gaivota que derrota
tudo o mau tempo no mar alto.
Eu sou o homem que transporta
a maré povo em sobressalto.


E quando agarro a madrugada,
colho a manhã como uma flor
à beira mágoa desfolhada,
um malmequer azul na cor,
o malmequer da liberdade
que bem me quer como ninguém,
o malmequer desta cidade
que me quer bem, que me quer bem.
Nas minhas mãos a madrugada
abriu a flor de Abril também,
a flor sem medo perfumada
com o aroma que o mar tem,
flor de Lisboa bem amada
que mal me quis, que me quer bem.